Aos 81 anos — 51 deles dedicados à pintura — o artista carioca Marcos Duprat abre no dia 3 de março a exposição “Matéria e Luz”, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema. São 30 óleos que reiteram um gesto que atravessa décadas: pintar devagar, por camadas, até que o pigmento se torne claridade.
Duprat trabalha com velatura, técnica tradicional da pintura a óleo baseada na sobreposição de camadas transparentes. O resultado não é apenas formal. É temporal. Há algo de adágio, como definiu certa vez o crítico José Guilherme Merquior, nesse modo de construir a imagem por acréscimos quase imperceptíveis. A cor não nasce pronta: é sedimentada.
Integrante da Academia Brasileira de Letras, Antonio Cicero Lima, que assina o texto de apresentação da mostra, observa que a pintura de Duprat não se resolve na superfície. Convida ao mergulho. Janelas, portas, corredores, espelhos e passagens aparecem como dispositivos simbólicos: atravessam o espaço físico da tela e insinuam uma geografia interior. Há sempre uma luz que conduz ou que escapa.
“Matéria e Luz”, texto de Antonio Cicero Lima, da Academia Brasileira de Letras (ABL) datado de 2018 para a exposição no Palazzo Pamphilj:
Seja quando suas obras se referem ao mundo exterior, seja quando se referem a interiores – ou, nas palavras do próprio artista, ” ao mundo interior” – o elemento dominante da pintura de Marcos Duprat é a luz, que ele apreende através do uso rigoroso da técnica tradicional da velatura. Este consiste na produção da cor através da sobreposição, por transparências e acréscimos, de diversas camadas de tinta. Trata-se, como já observou, a propósito de uma exposição de Duprat, o grande crítico José Guilherme Merquior, de “uma pintura lenta, em adágio, propícia à meditação do duplo, à ponderação da série, à perquirição da profundidade.”
Assim, as pinturas de Duprat, como toda verdadeira obra de arte, são produzidas através de uma relação dialética – de amor e de luta – entre suas intenções iniciais e atenção às exigências, aos caprichos e às sugestões de obra Infieri. A cada passo, ele se sente solicitado pela própria pintura a desenvolver novas soluções pictóricas. Duprat conhece profundamente a complexa relação entre o pintor, a matéria com a qual trabalha e a técnica que emprega. É, sem dúvidas, ao uso sutil e criterioso da velatura que se deve a extraordinária pulsação cromática de suas obras.
Nas pinturas que se referem ao mundo interior destacam-se, por um lado, janelas, portas, corredores e passagens iluminadas que conduzem ao mundo exterior e, por outro lado, espelhos que, por sua faculdade reflexiva, evocam a possibilidade da introspecção, ou seja, de uma interioridade ainda mais profunda. Temos assim um incessante retorno do mundo exterior ao interior, e vice-versa. A pintura de Marcos Duprat convida nossa imaginação a não apenas passear pela superfície de suas telas, mas a mergulhar nos seus diáfanos corredores, espelhos, passagens, lagos e mares.
Se o tema parece metafísico, o método é rigorosamente material. “É por meio do pigmento que ele elabora a luz”, escreve o curador Luis Sandes. A matéria não é obstáculo; é condição. Entre o corpo da tinta e a incorporeidade luminosa, trava-se um jogo óptico que tensiona visível e invisível.
Texto “Mergulho na Luz”, por Luis Sandes
Como colocou Antonio Cícero, as pinturas de Marcos Duprat nos convidam a percorrer suas superfícies e a mergulhar no que apresentam. O cerne da obra do artista reside em seu trabalho com matéria e luz. É por meio do pigmento que ele elabora a luz, como que dando concretude a ela em suas pinturas e trabalhos sobre papel.
Radha Abramo observou que, em Marcos Duprat, se trava um jogo óptico entre a matéria dos pigmentos e o incorpóreo da luz. É criada uma interação entre o visível, o corpóreo e o vir a ser da luz. A forma e a cor estruturam o espaço pictórico, em que a luz ocupa as imagens com o propósito de desarticular e desconstruir a composição já existente.
Por meio do trabalho com a luz, o pintor discute a solidão, o duplo, a impermanência, o transcendente e o onírico. Nas obras presentes nesta mostra, Marcos Duprat explora os limites entre a representação da realidade visível e a criação de espaços pictóricos geométricos em que a luz, denominador comum das obras expostas, têm um papel protagonista.
Em “Matéria e Luz”, Duprat parece retomar perguntas antigas: como pintar o que não tem corpo? Como tornar visível o intervalo entre o dentro e o fora? Em muitas telas, a solidão não é dramática; é meditativa. O duplo surge como espelho, não como ameaça. A impermanência é sugerida pela própria vibração cromática, construída camada a camada.
A exposição no Rio antecede a temporada paulista, no Ateliê Casa Um, e reafirma a coerência de uma trajetória marcada tanto pela disciplina quanto pelo deslocamento. Diplomata de carreira, Duprat viveu em cidades como Lima, Tel Aviv, Milão, Budapeste, Montevidéu, Tóquio, Cidade do Cabo e Kathmandu. A experiência do estrangeiro — o olhar sempre levemente deslocado — parece reverberar na recorrência de interiores atravessados por frestas de mundo.
Nascido no Rio de Janeiro, iniciou a formação artística no ateliê do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e mais tarde concluiu mestrado em Belas Artes na American University, em Washington, onde realizou sua primeira individual, em 1977. Desde então, construiu uma presença constante em instituições brasileiras: expôs no Museu de Arte de São Paulo, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, no Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia e no Museu Nacional de Belas Artes, entre outras. No exterior, passou por espaços como o Teien Metropolitan Art Museum, em Tóquio, e o Palazzo Pamphilj, em Roma.
Serviço: Exposição Matéria e Luz de Marcos Duprat na Casa de Cultura Laura Alvim. Abertura dia 3 de março, às 18h. Em cartaz até 3 de maio. Endereço: Av. Vieira Souto 176, Rio de Janeiro, RJ. Exposição Matéria e Luz de Marcos Duprat no Ateliê Casa Um, Rua José Maria Lisboa, 873, Casa 1, São Paulo.